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O peso do jaleco: médicos enfrentam crise silenciosa de saúde mental

Especialistas alertam sobre os impactos da sobrecarga, da pressão emocional e das longas jornadas na vida dos profissionais da saúde.

A rotina médica sempre foi sinônimo de muita responsabilidade e dedicação total. No entanto, longe dos olhos dos pacientes, cresce um problema que foi ignorado por muito tempo: o adoecimento mental dos médicos. Casos de ansiedade, depressão e burnout (o esgotamento físico e mental extremo) são cada vez mais comuns entre os profissionais brasileiros, o que acende um alerta sobre a necessidade de cuidar de quem cuida dos outros.

Dados da revista Frontiers in Psychiatry, de abril de 2025, mostram a gravidade da situação após a pandemia: 59,4% dos profissionais de saúde apresentaram sintomas de depressão, 45% relataram ansiedade e 40,5% sofreram com estresse pós-traumático. Para o psiquiatra Dr. Gustavo Omena, a pandemia não criou essa crise, mas revelou um problema antigo da profissão. Ele explica que a crise sanitária tornou impossível ignorar o que já acontecia há décadas, amplificando uma cultura que sempre tratou o adoecimento do médico como algo normal do trabalho.

Segundo o especialista, o esgotamento mental é causado pela soma de plantões intermináveis, pressão por produtividade e a falta de tempo para o autocuidado. Ele destaca ainda que o uso de aplicativos como o WhatsApp faz com que o trabalho nunca termine, já que dúvidas e emergências chegam a qualquer hora, impedindo o descanso. Para Edwaldo Joviliano, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), o tema precisa ser discutido com seriedade. Ele afirma que, embora a medicina tenha valorizado a resistência por muito tempo, hoje se entende que um bom atendimento depende do equilíbrio emocional e da qualidade de vida do médico.

A cultura do silêncio na medicina

Mesmo com o aumento do sofrimento psicológico, muitos médicos ainda têm dificuldade em pedir ajuda. O medo de serem julgados pelos colegas ou de parecerem fracos e incompetentes ainda é muito forte. Dr. Gustavo Omena explica que, desde a faculdade, o médico é ensinado a resolver tudo sozinho, o que gera receio de sofrer restrições no exercício da profissão caso admita que precisa de tratamento.

Os principais sinais de alerta incluem dificuldade para relaxar, problemas no sono, falta de exercícios, isolamento e aumento no consumo de álcool. "Quando você não consegue mais aproveitar a vida pessoal sem pensar no trabalho, é sinal de que algo já está errado há algum tempo", alerta o psiquiatra. O presidente Edwaldo Joviliano reforça que romper esse silêncio é fundamental. Para ele, o médico deve ter a liberdade de demonstrar fragilidade e buscar apoio, pois cuidar da saúde mental não diminui a competência técnica, mas torna as relações dentro da medicina mais humanas.